Que fará Boris no poder? Vai empurrar o Reino Unido pro abismo? Ou o governo dele cai antes disso?

Ele vai manter a fantasia de um Brexit impossível, ou seu governo cairá antes disso?

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Se tudo correr como esperado, amanhã Boris Johnson deverá ser sagrado oficialmente líder do Partido Conservador e, em seguida, assumirá o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido. Jamais tanta incerteza pairou sobre o que acontecerá.

Parte da incerteza deriva da personalidade histriônica de Boris. Seu dom para a palavra e seu talento de bufão se misturam ao senso de oportunidade incomum, que o levou a associar seu nome ao Brexit (leia mais neste post). A outra parte deriva de suas posições políticas.

Às dificuldades práticas impostas pelo resultado do plebiscito de três anos atrás, Boris jamais contrapôs nenhuma resposta racional. Apenas comprometeu-se com a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) a qualquer custo no prazo limite de 31 de outubro, sem dar a mínima para o significado real de suas palavras.

As frases de efeito e a insistência na tese da ruptura dos laços, mesmo que não consiga fechar um novo acordo com os europeus, permitiram-lhe conquistar o coração dos conservadores mais radicais e mais impacientes diante das hesitações de Theresa May e de sua incapacidade de obter apoio no Parlamento (o acordo fechado por ela com a UE foi submetido e rejeitado três vezes).

A decepção com May e o paradoxo insolúvel do Brexit – vendido à população, nas palavras do próprio Boris, como uma forma de “guardar o bolo e comê-lo ao mesmo tempo” – provocaram, nas eleições parlamentares europeias de maio, a debandada do voto conservador para outros partidos, em especial o recém-fundado Partido do Brexit.

O discurso de Boris tem por objetivo trazer de volta os eleitores perdidos. Ao que tudo indica, os resultados de amanhã mostrarão que, dentro do Partido Conservador, ele obteve sucesso – ainda que a maioria dos britânicos hoje se manifeste contra o Brexit.

Os problemas começarão no dia seguinte, quando Boris puser o pé pela primeira vez como titular do Número 10 de Downing Street. De cara, enfrentará uma rebelião no próprio ministério. Dois dos principais integrantes do gabinete, os secretários Philip Hammond (Economia) e David Gauke (Justiça) já anunciaram que preferem renunciar a assumir o compromisso com o Brexit sem acordo. Outros se seguirão.

Não é para menos. O próprio governo elenca, em pouco mais de uma centena de documentos oficiais, o impacto catastrófico que reperesentaria o divórcio brusco da UE. A previsão oficial em caso de Brexit sem acordo fala em queda de 2% no PIB, alta de 5% no desemprego e desvalorização de 10% no preço dos imóveis . Das filas na alfândega ao tranplante de órgãos, do roaming de celular aos programas na TV paga, da crise alimentar a ação da polícia – tudo o que hoje funciona sem atrito ficaria em suspenso.

O tamanho da revolta que Boris enfrentará no próprio partido caso leve a cabo sua intenção de lançar o país no precipício foi medido na semana passada. Dezessete parlamentares conservadores se aliaram à oposição para aprovar, por 315 votos a 274, uma moção contra uma manobra que permitiria o Brexit sem acordo sem aval do Parlamento.

Pela manobra, conhecida como “prorogation”, a rainha suspenderia, a pedido do premiê, a sessão parlamentar às vésperas do prazo fatídico. Trabalhos legislativos seriam retomada só depois do Brexit. A moção torna a manobra inviável, ao exigir que o Parlamento se reúna mesmo que o gabinete não consiga cumprir a obrigação de atualizá-lo.

Se insistir no caminho do Brexit sem acordo, Boris poderá perder a maioria parlamentar e se verá forçado a convocar novas eleições. Outra alternativa foi aventada pelos próprios europeus: adiar mais uma vez (seria a terceira) o prazo para que o divórcio entre em vigor.

O único elemento favorável a Boris é o calendário. Na quinta-feira, o Parlamento entra em recesso de verão e volta só em setembro. A partir de novembro, a Comissão Europeia troca de comando: será chefiada pela alemã Ursula von der Leyen. Se ele conseguir o adiamento, as duas partes do divórcio estarão sob nova liderança.

Mesmo que Boris consiga mais tempo para cumprir a promessa de renegociar o acordo, e ainda que a UE tenha uma nova comandante, é praticamente impossível que ele obtenha novas concessões.

O ponto sensível é o mesmo. O documento firmado entre May e os europeus prevê a manutenção do Reino Unido por um período indeterminado numa união aduaneira com a UE, de modo a evitar a criação de barreiras físicas entre Irlanda (parte da UE) e Irlanda do Norte (parte do Reino Unido). Para manter a paz na região sensível, os europeus não tolerariam outra solução (e não cessam de repeti-lo).

Os partidários do Brexit radical, entre eles Boris, veem a união aduaneira como armadilha para manter o país preso às regras europeias e impedi-lo de fechar tratados comerciais com outros países e blocos. Não há, contudo, perspectiva alguma de que convençam a UE a mudar o que está assinado. Impossível guardar o bolo e comê-lo ao mesmo tempo.

Para manter a fantasia de um Brexit impossível, Boris se diz disposto a lançar seu país no abismo. Uma vez no poder, terá coragem?

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